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Dia Mundial de Conscientização do Autismo,2 de Abril

Desafio do autista é transmitir ao mundo o que sente

Se você sente fome, frio ou dor e precisa de ajuda, o que fazer? Imagine você impossibilitado de dizer o que quer, o que precisa? Se conseguiu imaginar, então entendeu um pequeno fragmento do mundo de  uma pessoa com autismo.

“O autismo me prendeu dentro de um corpo que não posso controlar”, disse Carly Fleishmann. A menina canadense quebrou uma espécie de barreira invisível e descobriu, aos 10 anos de idade, como mostrar aos pais o que queria. Mesmo sem ter aprendido a escrever, Carly encontrou no teclado de um computador a voz que lhe faltava.

Os comportamentos típicos do autismo continuavam, entre eles gritar, balançar os braços violentamente e realizar movimentos repetitivos. No entanto, esse comportamento passou a ter uma explicação: “Se não fizer isso, parece que meu corpo vai explodir. Se pudesse parar, eu pararia, mas não há como desligar. Sei o que é certo e errado, mas é como se estivesse travando uma luta contra o meu cérebro”, disse.

Carly aplicou conhecimentos absorvidos ao longo dos anos e escreveu as primeiras palavras. Desde então, foi estimulada por seus pais a digitar o que sentia. Assim, a menina mostrou à sociedade que os autistas não vivem em um universo particular, construído para isolá-los do mundo. Eles apenas precisam reagir de certa forma para se concentrar ou controlar uma intensa atividade cerebral. “Eu gostaria de ir à escola como as outras crianças, mas sem que me achassem estranha quando eu começasse a bater na mesa ou gritar. Eu gostaria de algo que apagasse o fogo”.

Inclusão de autistas na escola não existe, dizem especialistas e parentes

Está na lei, mas o direito das crianças autistas de estudar em escolas regulares com a atenção devida é ainda um sonho distante, segundo especialistas e parentes de estudantes autistas. Para a fundadora da Associação Mão Amiga, Mônica Accioly, a inclusão dessas crianças nas escolas é pontual.

“Depende da relação que a criança estabeleça naquela escola com a professora, com a diretora, com a coordenadora. A escola tem que ter um projeto de inclusão e isso praticamente não existe”. Segundo ela, existe boa vontade e só. “E boa vontade é pouco para uma criança que precisa de um trabalho diferenciado”.

Mônica desenvolve na associação trabalhos com crianças autistas e suas famílias e conhece bem a realidade desses alunos que fazem peregrinações por instituições de ensino, sobretudo no ensino médio.

“Quando chega o sexto ano, [a criança tem contato com] quatro, cinco, professores por dia. É um esforço imenso para o autista, pois exige um nível de organização alto. Mas, na verdade, com pequenas adaptações, simples até, o próprio professor poderia ajudar a criança a organizar sua rotina”, disse ela, citando como exemplo uma lista com as tarefas do dia, que poderia ser colada na carteira do aluno.

Cansada de buscar uma escola que acolhesse o neto autista, a pedagoga Regina Angeiras decidiu criar uma escola que atendesse a toda e qualquer criança. A escola Divertivendo, na zona sul do Rio, desenvolve há sete anos um projeto para crianças com déficit intelectual e crianças sem nenhum problema de aprendizado. “As escolas que se dizem inclusivas, na verdade, apenas abrem suas portas”, disse.

Para Regina, uma escola verdadeiramente inclusiva deve, em primeiro lugar, ter poucos alunos em sala de aula. Ela explicou que o número reduzido dos alunos em sala é o primeiro passo, já que são necessárias avaliações diferentes, cada um deve ser olhado individualmente e há atividades específicas para suas dificuldades, seja ele autista ou não. “Não dá para a professora fazer esse trabalho com 20 crianças em sala de aula. Não dá para escrever no quadro e apagar em seguida, por exemplo, pois cada um tem seu tempo”.

Na escola que ela dirige, a média é oito crianças em sala. Do total de alunos, 15 têm algum tipo de dificuldade cognitiva e desses, dez são autistas. Apenas quatro alunos não têm nenhuma dificuldade de aprendizado. “Não era assim, mas infelizmente os próprios pais que têm filhos com [necessidades especiais] não deixam na mesma escola os irmãos que não têm”.

Segundo Regina, uma escola inclusiva precisa elaborar uma adaptação do currículo e investir seriamente na formação específica dos docentes. “Não adianta apenas aceitar a criança olhando para o teto em sala de aula. A escola deve estar preparada com um projeto pedagógico”.

Regina explicou que para o autista é fundamental que ele vivencie todo o processo de aprendizagem. “Trabalhamos com pedagogia de projetos. Se vamos estudar os animais, levamos a turma ao zoológico e tiramos fotos com eles. Quando voltamos, fazemos os trabalhos com as fotos deles. E na avaliação sobre a experiência no zoológico, está lá a foto. Se não vivenciarem, fica tudo muito distante para eles”.

Regina ressaltou que há casos graves, em que não adianta o autista frequentar a escola. “Não há regra, mas há casos em que a criança realmente não vai aproveitar aquele ambiente”.

Escolas adaptam-se às mudanças e acolhem mais crianças com necessidades especiais

 A educação é um direito de todos, garantido pela Constituição. Em 2011 foram matriculadas mais de 558 mil crianças com necessidades educacionais especiais no Brasil. Há dez anos, o número não chegava a 142 mil. O diferencial é que hoje as escolas públicas e privadas devem garantir o acesso e a permanência desses estudantes no ensino regular e na educação especial.

Algumas crianças precisam de um pouco mais de atenção. É o caso das crianças com autismo, o transtorno do desenvolvimento global. Essas crianças têm dificuldade de criar vínculos com outras pessoas, de comunicação e de socialização. Como se trata de um transtorno, o autismo é uma diferença e não uma deficiência. Muitas dessas crianças têm um grau de inteligência elevado: algumas vezes parecem mais desatentas ao ambiente, embora isso não signifique que estejam alheias ao que acontece à sua volta.

Trabalhar na educação de crianças com esse transtorno exige muito do educador. Sheila Nantes é mãe de duas crianças com autismo: Vítor, de 14 anos, e Vinícius, com 10, matriculados na rede pública de ensino do Distrito Federal. Para a mãe, encontrar vagas não foi problema. O problema é a capacitação dos professores. Exemplo disso é que a mãe teve de trocar um dos filhos de escola, por ele ter sido deixado sozinho em sala de aula pela professora.

Sheila acredita que, além de capacitação, os professores devem ter vocação para a tarefa:  “Não adianta só você te ter um diploma, você tem de ter dom. Criança especial  é diferente, você tem que saber gostar, você tem de amar. Não adianta só chegar e dizer ‘eu sou professora de ensino especial’ só para ficar com um aluno na sala, só porque tem preguiça de dar aula para vários alunos. Assim, quem sofre são os pais e as crianças”, diz.

Uma das dificuldades na educação das crianças com autismo é a variedade das formas com que o transtorno se manifesta. Existem os que não falam, os que falam muito, os que não aceitam nenhum tipo de carinho e os extremamente carinhosos, os agressivos e os que ficam completamente alheios aos estímulos do ambiente.

Outra dificuldade passa pela falta de investimentos. A psicopedagoga Geici Mendes é professora de uma turma de educação especial no Distrito Federal. Na turma de Geici estudam dois alunos com graus diferentes de autismo. Ela conta que muitas vezes tirou dinheiro do próprio bolso para providenciar o material necessário para as aulas. Mas não se arrepende disso:

“Quando a criança dá o primeiro passo, os pais ficam felizes, acham aquela coisa maravilhosa. Aqui, quando eu vejo um progresso, mínimo que seja, é muito gratificante, eu comemoro com eles”, conta a professora.

O autismo é quatro vezes mais comum no sexo masculino do que no feminino. É encontrado em todo o mundo e em famílias de qualquer configuração racial, étnica e social e ainda não se conseguiu  provar qualquer causa do transtorno. Mesmo assim, o preconceito é motivo de sofrimento para os pais. Muitos acham que a conscientização é a saída. É o caso de Cícero Santos, pai de Vitor e Vinícius, que evita as brigas com aqueles que não entendem seus filhos: “Eu passei por cima disso [do preconceito]. Às vezes eu ficava chateado, minha esposa até chorava. Hoje não, a gente procura passar para as pessoas o que aprendeu, quando uma pessoa não entende, a gente tenta explicar”, diz o pai.

Para a especialista em educação de crianças com autismo Márcia Lima, a compreensão e o apoio dos pais são fundamentais para o sucesso da criança: “É um processo muito complexo esse de se deparar com o diagnóstico. Depois que você entende, depois que você já amadureceu essa ideia, aí você é capaz de viver todas as possibilidades que esse filho pode te dar. Se para nós profissionais já é difícil, imagina para uma mãe que às vezes espera um ‘eu te amo’, ou um carinho que não vem. Então a gente tem pais que relutam muito em incluir seu filho na educação comum”, destaca a especialista.

Entre preconceitos, acolhimentos e superações, Sheila Nantes diz que iria até o final do mundo por um de seus filhos, e garante que não há nada mais satisfatório para uma mãe do que acompanhar a evolução da criança:

“Antes eu achava que nunca ia poder ver meu filho lendo ou escrevendo. E hoje eu vejo meu filho escrevendo, mesmo que com letrinhas tortas. Isso para mim é uma gratificação muito grande. Quando eu vejo meu filho escrevendo ‘mãe’ é como se eu estivesse vendo meu filho nascer”, conta Sheila emocionada.

Fonte  Agência Brasil