
Construir uma usina de transformação de lixo hospitalar no Hospital Central da PM, no Estácio, por R$ 4 milhões era projeto para ‘sangrar’ ainda mais dinheiro dos cofres do Fundo de Saúde da Polícia Militar (Fuspom). Segundo o ex-gestor do órgão, coronel Décio Almeida da Silva, principal colaborador das investigações, os idealizadores eram o ex-comandante da PM, coronel José Luís Castro, e o ex-chefe do Estado-Maior Administrativo, Ricardo Pacheco. Para garantir a execução do negócio com a empresa Bioalpha Serviços e Comércio de Materiais Médico-Hospitalar o maior aliado era Orson Welles, ex-funcionário da Secretaria estadual de Governo.
Welles tinha livre acesso ao gabinete de Castro, entre 2013 e 2014, quando o esquema de corrupção desviou R$ 16 milhões do Fuspom. Em um dos trechos do depoimento de Décio , ele é categórico sobre Castro. “Tem fama de ser o maior ‘goela’ da Polícia Militar”, afirmou. E depois explica a palavra ‘goela’: “Tal termo é, geralmente, aplicado a policiais que gostam muito de dinheiro.”
Na sexta-feira passada, Welles e Pacheco foram para a cadeia, com outros 20 acusados de envolvimento no esquema, entre eles, mais 10 oficiais. Na ocasião foi deflagrada a operação ‘Carcinoma’ — que significa tumor maligno — da Secretaria de Segurança e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público.
Segundo relatos de Décio e Helson Sebastião Barboza dos Prazeres, outro colaborador das investigações, o dinheiro das empresas que pagavam propinas de 10% sobre os valores dos contratos fraudulentos para aquisição de insumos e equipamentos para hospitais da PM chegavam ao Quartel-General da corporação em envelopes lacrados, bolsas de papel e mochilas.
Juarez Rezende, advogado de Pacheco e três oficiais, rebateu as acusações. Ele alega que não há provas de enriquecimento ilícito de seus clientes. “Vou pedir a quebra do sigilo telefônico e bancários”, afirmou. Ele ressaltou que o grupo está mais tranquilo na Unidade Prisional, em Niterói, conhecida como BEP. Sexta-feira, eles foram recebidos pelos internos com o coro: ‘Ei ladrão, cadê o meu Fuspom’.
Para mascarar a compra fraudulenta, por R$ 4,2 milhões, de 75 mil litros de ácido peracético (usado na esterilização de instrumentos e equipamentos), o coronel Décio Almeida da Silva revelou ao Gaeco que José Luís Castro e Ricardo Pacheco queriam que a Medical West devolvesse os valores.
Segundo Décio, se a PM conseguisse reaver o dinheiro, para os oficiais a sindicância seria encerrada. O negócio foi fechado com a empresa, com a participação de Orson Welles, também conhecido como ‘Professor’. A proximidade de Welles era tanta que ele havia prometido a Pacheco e Castro o pagamento de R$ 200 mil.
A ordem era esvaziar o poder dos médicos da PM. Para ‘consertar’ o rastro deixado pelos processo fraudulentos, Pacheco nomeou o coronel Kleber dos Santos Martins, também presos, para a Comissão de Auditoria Administrativa, com objetivo de impedir que a quadrilha fosse identificada.