Um dos mandados da Operação Salvator, como foi batizada, foi contra o próprio Orlando Curicica. Em junho do ano passado, o miliciano foi transferido do Rio para um presídio federal em Mossoró (no Rio Grande do Norte). Os agentes também cumpriram 93 mandados de busca e apreensão.
O delegado Antônio Ricardo Nunes, chefe do Departamento Geral de Homicídio e Proteção à Pessoa (DGHPP), disse que “combater essas organizações criminosas resulta em melhorias significativas na redução da criminalidade, especialmente o número de homicídios no município”. Nunes afirmou também que “o DGHPP será implacável com esses criminosos”.
De acordo com investigações da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), a milícia chegou a Itaboraí há pelo menos um ano e meio. Sob o comando de Orlando Curicica, China e Renato Nascimentos dos Santos, o Natan ou Renatinho Problema, praticavam homicídios, torturas, extorsões, desaparecimento de pessoas e tinham um cemitérios clandestinos. Curicica oferecia armamento e “soldados” para eles e, em troca, recebia um percentual dos valores arrecadados no município.
Ao chegarem na região, o grupo passou a matar usuários de drogas, pessoas que praticavam pequenos roubos e até mesmo prender traficantes de outras comunidades. O objetivo era expandir o domínio.
No entanto, no ano passado, houve um racha entre China e Renatinho Problema, quando China deixou o grupo e delatou Renatinho Problema para a 82ª DP (Maricá). Problema foi preso, em dezembro passado, em Guapimirim, durante as investigações do caso Marielle Franco.
“A divisão aconteceu basicamente depois da prisão de um outro PM e provavelmente aconteceu por discordâncias de atuação entre eles; um querendo explorar alguma atividade econômica, ter uma certa tolerância com o tráfico, e o outro discordando dessa parte”, explica a titular da DHNSGI, a delegada Barbara Lomba.
Durante as investigações, que duraram um ano, a DHNSGI descobriu que Curicica colocou Renatinho Problema para expandir os negócios da quadrilha no município.
Ao menos cem pessoas foram executadas pela milícia em Itaboraí e tiveram os corpos desaparecidos, segundo o Ministério Público. Os investigadores, agora, querem saber se o grupo paramilitar usava um cemitério clandestino para desovar os restos mortais das vítimas. Muitas famílias das vítimas assassinadas pela milícia foram coagidas a não divulgarem ou denunciarem os assassinatos.
A mãe de Renato Nascimento dos Santos, o Renatinho Problema, foi presaem Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Maria do Socorro do Nascimento dos Santos recolhia parte dos lucros da quadrilha em nome do filho. O valor era de R$10 mil a R$ 15 mil por mês. Ela entregava parte desta quantia ao filho na prisão.
A milícia também cobrava mensalidade entre R$1,5 mil e R$ 2 mil de comerciantes.
Em Itaboraí, o grupo passou a atuar de diversas formas. Além de ameaçarem e extorquirem moradores e comerciantes — em serviços como exploração de gás, TV a cabo e mototáxi — o bando começou a exigir taxas para empresas que prestavam serviços para o Complexo Petroquímico do Rio (Comperj). A polícia identificou que o grupo cobrava o transporte das empresas que levavam funcionários ao Comperj. Eles ainda atuavam na compra e venda de imóveis da região.
“Casas tomadas dos moradores eram alugadas e viravam fonte de renda”, diz delegado Gabriel Poiava.
Os milicianos estariam por trás de diversas mortes e desaparecimentos em Itaboraí. Em um primeiro momento, os desafetos do grupo eram mortos e seus corpos deixados à mostra. Por conta das diversas investigações da DHNSGI, o bando passou a matar e desaparecer com os corpos. Alguns milicianos se passavam por policiais civis para praticar os crimes.
“Uma das vítimas foi mutilada, tiraram o coração dela, chegaram a tirar a cabeça e isso demonstra que eles tinham um requinte de crueldade”, conta o delegado responsável pelas investigações, Gabriel Poiava Martins conta, sobre uma morte que aconteceu há cerca de três meses. “Alguns deles (dos milicianos) foram indiciados e presos também por crime de tortura”.