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Milícia apoia candidatura de coronel da PM

Uma milícia de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, organizou um ato de campanha em favor de um candidato a deputado estadual. A informação foi obtida pelo Ministério Público do Rio através de escutas telefônicas autorizadas pelas Justiça entre agosto e setembro. O beneficiado é o coronel da reserva da Polícia Militar Fernando Salema (PSL), ex-comandante do batalhão de São Gonçalo. As interceptações mostram que a visita foi organizada por Alex Sandro da Silva, conhecido como Sandro, número dois na hierarquia da quadrilha. Salema esteve no Engenho Pequeno, um dos redutos dominados pelos milicianos, no dia 5 de setembro. O candidato nega envolvimento com os milicianos.

A investigação do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) deu origem à Operação Gerais. Deflagrada no dia 24 de setembro, ela prendeu 18 integrantes de grupos paramilitares que dominam áreas de São Gonçalo e Maricá. Alex Sandro da Silva, conhecido como Sandro, foi identificado como braço-direito de Luis Claudio Freires da Silva, o Zado, preso durante a Operação Gerais, e chefe dos paramilitares que dominam o Engenho Pequeno.

Foi Sandro que articulou o encontro, segundo as escutas telefônicas realizadas com autorização da Justiça entre 24 de agosto e 8 de setembro. Às 17h13 de 5 de setembro, o criminoso conversa sobre a visita, marcada para a Rua Waldir dos Santos, com um interlocutor. Sandro pergunta se “o coronel” já havia chegado. O homem, identificado como Serginho, diz que o candidato estava a caminho, mas que “o grupo deles” já estava no local combinado. Sandro, então, avisa que estava chegando. Um pouco mais tarde, às 17h37, Sandro diz a uma mulher que havia chegado ao local antes do candidato para divulgar o ato de campanha, que seria realizado em frente a um estabelecimento comercial da região, conhecido como Predileto.

Salema chegou ao local pouco depois. O candidato iniciou uma transmissão ao vivo em sua página no Facebook, em frente ao estabelecimento comercial combinado, às 18h13. O coronel permaneceu no bairro pelo menos até as 20h, quando encerrou uma nova transmissão ao vivo. Às 23h19, Sandro conversa comemora o sucesso da atividade de campanha em ligação com outro homem. O interlocutor, identificado como Vaguinho, diz que Salema “elogiou muito Sandro”. Conta ainda que o coronel demonstrou preocupação “com as coisas que Zado falou”. Salema então teria ligado ordenado a ida de viaturas da PM ao local. Logo em seguida duas delas apareceram, conta Vaguinho. Além da visita no dia 5 de setembro, Salema voltou ao Engenho Pequeno cerca de duas semanas depois.

O juízo da 2ª Vara Criminal de São Gonçalo deferiu o compartilhamento da prova com a Justiça Eleitoral. O Gaeco já enviou os dados para a Procuradoria Regional Eleitoral do Rio, que irá analisar se houve alguma irregularidade eleitoral, já que o ato pode configurar abuso de poder político e econômico. Salema afirmou que nunca aceitaria apoio de pessoas ligadas ao crime organizado e que sua campanha foi baseada em caminhadas pelas ruas da região. O candidato viu a investigação com surpresa. Segundo ele, por ter comandado quartéis da região, conhece muitos policiais militares:

Eu nunca fiz reunião em bar. Fiz poucos encontros com moradores. A base da minha campanha é visitar bairros com caminhadas ou carreatas. Conheço muitos policiais que moram no local (Engenho Pequeno), até porque, comandei o batalhão da região quando estava na ativa. Mas este nome de bar eu não conheço, e nem frequento este tipo de local. Quando comandei o 7º BPM, o meu motorista morava lá. Ele era de igreja, não frequentava bar. Sou muito popular nas áreas dos quartéis onde trabalhei. Na minha campanha, tenho muitos voluntários que pegam meu material de campanha, mas que não conheço. Sempre combati o crime organizado e não receberia apoio deste tipo de gente (milicianos). Em 2015, quando comandava o 7º BPM , ganhamos até prêmio por redução de índices de criminalidades e produtividade. Para mim, essa investigação está sendo uma surpresa – afirma o candidato, que tem realizado frequentes atos em companhia de Flávio Bolsonaro, candidato ao Senado pelo PSL.

Segundo os promotores do Gaeco, a Operações Gerais é um desdobramento da Operação Calabar, que investigou sobre o suposto apoio de policiais militares do batalhão de São Gonçalo aos milicianos daquela cidade e de Maricá. O grupo seria chefiado pelo sargento Wainer Teixeira Júnior, em Itaipuaçu e Inoã, em Maricá. O militar está preso desde junho do ano passado, quando o Gaeco deflagrou a Calabar. De acordo com as investigações, a milícia chegava a arrecadar cerca de R$ 100 mil por mês, ou seja, R$ 1,2 milhão em um ano.

Status na corporação

Fernando Salema passou à reserva neste ano, depois de 33 anos de Polícia Militar. Ele comandou batalhões importantes nos últimos anos como o 35ª BPM (Itaboraí), o 7º BPM (São Gonçalo) e o 12º BPM (Niterói). Antes de deixar a PM, estava à frente do Comando de Policiamento Especializado.

Conhecido como um oficial linha-dura, que privilegia a realização de operações constantes em comunidades, ele passou a ser conhecido como Salema Cobra. O apelido faz referência ao personagem que, interpretado por Sylvester Stallone no cinema, ficou famoso pelo bordão “você é a doença, eu sou a cura”. Salema chegou a manter em sua mesa de trabalho um boneco de si mesmo com o visual do justiceiro das telas.

Em Niterói e São Gonçalo, o oficial conquistou trânsito com políticos, recebendo homenagens nas Câmaras dos Vereadores. À frente do 12º BPM se envolveu em uma polêmica em maio de 2016, quando Jair Bolsonaro fez uma palestra em Niterói. Fardado, Salema sentou à mesa com o então pré-candidato em um ato político. A PM reprimiu manifestantes que protestavam contra Bolsonaro com spray de pimenta e bombas de efeito moral.