
O ano novo surgia chuvoso, como já era uma tradição, mas ninguém poderia esperar pelo que aconteceria. Na madrugada do dia 10 de janeiro (uma segunda-feira), a cidade do Rio de Janeiro não dormiu e ficou acordada diante de um dos piores pesadelos por pelo menos cinco dias. A rotina era de caos e de paralisia, com pelo menos 250 mortos, mais de mil feridos e 50 mil desabrigados.
Grande parte da cidade ficou sem água e energia ou sistema de transporte. Para quem viveu, o trauma parece que foi ontem, mas ocorreu em 1966. Naqueles dias, a média foi de 250 mm de chuva (semelhante à quantidade no desastre na região serrana fluminense, no ano de 2011, quando morreram mais de mil pessoas).
Passados 50 anos, aquele desastre socioambiental ainda é estudado por especialistas. Considerada a “pior enchente de todos os tempos” por historiadores e moradores, as lembranças estão vivas e voltam à tona a cada chuva, a cada janeiro.

“Era tanta chuva que não se sabia se era dia ou noite. O que me marcou muito foi que podia ver que os trilhos do trem estavam tomados por muita lama e água. Ninguém passava”
A família permaneceu dentro de casa vendo o céu desabar e tentando acalmar as crianças. Perto de completar 80 anos, Irene tem na memória a rua de frente de casa tomada pelas águas, desmoronamentos, barracos e partes das casas descendo ladeira abaixo. “Foi a pior chuva da minha vida. Nunca vou esquecer”.
No bairro do Estácio, a 3 km do centro, Wanda Ferreira Rosa, naquele momento com 36 anos, recorda que a cidade foi tomada pelo pavor. No primeiro andar do prédio em que morava, conseguiu manter a tranquilidade para acalmar a mãe. Elas avistavam o Morro de São Carlos, onde havia princípios de desmoronamentos e rezavam enquanto a chuva despencava. “Foi a pior enchente que passamos”. Ela lembra que carregaram roupas e objetos para a igreja do bairro, onde chegaram a ficar abrigadas até que o sol reaparecesse.
“Parecia que o mundo estava desabando”, lembra Gilberto Pedrosa, hoje com 74 anos. O fôlego do jovem, à época, fez com que ele conseguisse nadar pelas ruas próximas de sua casa, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, para se salvar. Ele chegou a ter dentes quebrados no caminho da fuga. “Foi um grande trauma e não vou esquecer nunca”.
A historiadora Andrea Casa Nova Maia estudou os reflexos da enchente histórica a partir dos registros e da memória de quem viveu a catástrofe. Ela contextualiza que o episódio ocorreu apenas dois anos depois de instaurado o regime militar no país e isso explica um estado de tensão policial. “A enchente foi ao encontro, por exemplo, do discurso de que era necessário remover pessoas das favelas. Lógico que os mais pobres sofreram mais com os reflexos das cheias. Quem estava no morro era mais afetado, uma tragédia de cima para baixo”, disse .
Ela exemplifica que desabrigados, que foram resgatados e alocados no complexo do Maracanã, eram tratados com ordens aos gritos em postura disciplinadora. Por isso, houve quem lembrasse que a situação seria semelhante a de um campo de concentração. A enchente acelerou a inauguração da Cidade de Deus, por exemplo, para abrigar quem estava sem casa.
Apesar do drama nas favelas, que já se formavam na cidade que não tinha chegado ainda a quatro milhões de pessoas, o destaque principal da mídia, segundo avaliou a pesquisadora, era para a Praça da Bandeira, no centro da cidade, próxima à sede dos principais veículos de comunicação. O local é reconhecido pela população como o “lugar que enche de água”.
“A história da cidade [do Rio de Janeiro] passa pelo horror de enchentes. Trata-se de um lugar que cresceu sobre mangue e com ocupação do solo desordenada”
Andrea Casa Nova Maia, historiadora
A enchente de 1966 é considerada um exemplo de resultado danoso de uma “ocupação de áreas pantanosas e/ou mangues com a diminuição da capacidade de absorção do solo, em uma área onde a chuva é parte do ecossistema num processo de urbanização desgovernado”, explicou em artigo escrito com a doutora em história ambiental Lise Sedrez, uma das pincipais pesquisadoras do tema no Brasil.

O soldado bombeiro Antonio Mattos (na foto acima, está sem camisa) saiu do quartel na segunda-feira (dia 10) e só retornou na quinta-feira daquela semana. Alimentou-se a partir das doações dos moradores. “Não tinha como voltar para casa ou para o quartel. Era muita gente para ajudar. Nunca vou esquecer de todos os corpos que resgatei e dos sobreviventes que ajudei”, explicou o subtenente da reserva, hoje aos 74 anos.
Mattos se tornou historiador e reconhece que o episódio foi decisivo para que a corporação buscasse novas tecnologias e métodos de trabalho. “Os chassis e os motores das viaturas ficaram mais altos. Alavancas e cordas foram substituídas por recursos hidráulicos. Tanto essa enchente como a tragédia na Serra das Araras (em 1967) fizeram com que os bombeiros ganhassem mais profissionalização”. Depois de 46 anos na ativa, Mattos garante que essa foi a pior enchente que a cidade passou.
Inundou um sítio entre a Baía de Guanabara e os morros. Não há informações sobre número de mortos.
Um grande temporal atingiu o Rio de Janeiro. Foram três dias consecutivos de fortes chuvas. Canoas fizeram parte da paisagem do centro. Não há informação exata sobre número de vítimas.
Episódio conhecido como “águas do monte”. O Morro do Castelo (no centro) desmoronou, arrastando casas e vítimas. A construção da muralha do Castelo-Fortaleza de São Sebastião foi uma providência adotada.
Foram 165 mm precipitaram em 24 horas. O transbordamento do Canal do Mangue provocou alagamento em quase toda a cidade e houve desmoronamentos com mortes nos morros de Santa Tereza, Santo Antônio e Gamboa.
De novo no Canal do Mangue e inundação da Praça da Bandeira. Houve desabamento de barracos no Morro de São Carlos (no bairro do Estácio).
Resultou em 250 mortos e mais de 50 mil desabrigados.
Deslizamento em Laranjeiras com 200 mortos e 300 feridos, devido as fortes chuvas, uma casa e dois edifícios foram soterrados.
Inundação com 6 mortos depois de deslizamentos no Morro Pau da Bandeira, inundando várias ruas com o transbordamento do Rio Faria-Timbó.
Um grande temporal caiu na madrugada de 20 de março de 1983, provocando a desabamento de casas e a morte de 05 (cinco) pessoas em Santa Teresa, onde a chuva atingiu 189 mm. O transbordamento de rios e canais em Jacarepaguá deixou mais de 150 desabrigados 18 mortos.
Enchente na região serrana com 292 mortos, 20 mil desabrigados. Foi decretado pela primeira vez do Estado de Emergência e depois do Estado de Calamidade Pública.
Enchente e deslizamento no Rio de Janeiro com289 mortos, 734 feridos, 18.560 desabrigados
Enchente na capital e região Serrana com 41 mortos, 72 feridos e 180 famílias desabrigadas.
Enchente na região Serrana com 22 mortos, 60 feridos e 133 famílias desabrigadas.
Enchente na Região Serrana, Sul e Norte Fluminense com 36 mortos, 95 feridos e 870 desalojados e 823 desabrigados.
Deslizamento no Morro do Bumba (Niterói) com 264 mortos.
Enchente na região serrana com mais de 1 mil mortos e considerado o maior desastre natural da história do Brasil
* Dados do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro



22/01/19
Está faltando a maior tragédia natural do Brasil… estimativa de 1700 mortos…. na Serra das Araras – Piraí, em 1967. Choveu cerca de 275mmm em 3 horas e meia.