“Tudo o que temíamos está acontecendo e de uma forma ainda pior”, avaliou o presidente da 55ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (Méier), Humberto Cairo, que vinha tentando mediar um consenso entre os invasores do antigo prédio da Telerj, no Engenho Novo, e a Telemar, que é dona do terreno. O prédio foi ocupado por cerca de 5 mil moradores há 11 dias. Após uma das lideranças dos manifestantes ser presa, o confronto se acirrou e os policiais usam bombas de efeito moral e gás lacrimogênio para controlar a situação.
Representante dos moradores da ocupação, Maria José Silva, também criticou a ação: “Estamos sendo tratados como bichos. A solução que eles deram é um massacre. Fomos até eles e pedimos para acompanhar a reintegração, mas eles não aceitaram e o que estamos vendo é esta violência, com ônibus queimado, policial ferido e criança ferida”.
“Muitas pessoas saíram desesperadas e deixaram as coisas lá dentro. Teve gente que saiu para trabalhar e agora não está conseguindo voltar nem para pegar os documentos”, conta Maria José, que não mora na comunidade, mas vinha acompanhando a ocupação de perto por morar em uma favela próxima. “Estão falando que lá tem traficantes, mas são pessoas humildes que precisam de uma moradia”, observou.
MTST classifica como barbárie ação da PM durante desocupação de edifício no Rio
O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Simões, classificou como “barbárie” a ação da Polícia Militar, durante a reintegração de posse de um terreno da Telemar, no Engenho Novo, subúrbio do Rio de Janeiro, que começou na manhã de hoje (11). “Foram atos de barbárie e violência inadmissíveis e não tenham dúvida de que o governo do estado e a prefeitura vão ter que arcar com as consequências de toda está violência”, disse.
Simões sustenta que os policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque já chegaram ao local quebrando tudo e atirando bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha. “O que está acontecendo aqui em tempos de Copa e de mega-eventos é gravíssimo. O tratamento que está sendo dado ao povo do Rio de Janeiro é algo difícil de aceitar. Estamos vendo um verdadeiro massacre. Não há eufemismo nenhum nisto, a policia militar já entrou quebrando tudo. Há relato de feridos e eu mesmo já vi três pessoas feridas, inclusive uma criança ferida por uma bomba de gás lacrimogêneo”.
O coordenador do MTST contou que a Polícia Militar começou a cercar a área por volta das 4h30 de hoje e iniciou a desocupação antes das 6h, o que, segundo ele, é proibido. Disse, ainda, que não houve nenhuma negociação e que nenhuma liderança dos moradores ou mesmo dos movimentos que apoiam a ocupação foram ouvidos. Durante o confronto, os manifestantes incendiaram um predio, ônibus, caminhão e uma viatura policial. Jornalistas que cobrem o caso também relatam que sofreram violência física e verbal pela PM. Um repórter do jornal O Globo foi detido.
“A realidade é que a situação está saindo do controle, as pessoas estão se revoltando contra esta violência que derruba por terra a ideia inicial de uma ocupação pacifica”, disse Simões. Em seu relato o coordenador do MTST disse que, como a polícia cercou toda a área ocupada e está impedindo as pessoas de entrar ou sair do local, o conflito está se generalizando. “As únicas informações que temos estão sendo transmitidas por telefone das pessoas que estão impedidas de deixar a área central do conflito pela polícia. E elas indicam a existência de feridos, inclusive crianças”.
Guilherme Simões alertou para o risco de generalização do conflito já que os manifestantes estão se abrigando em comunidades adjacentes. “São 5 mil pessoas na área ocupada e as comunidades em volta da área também estão sofrendo repressão por terem se colocado ao lado das famílias que ocupam o terreno”, disse.