
É muito estranho saber que uma simples opinião da jornalista Rachel Sheherazade sobre a ação de justiceiros no Rio de Janeiro pode fazer o SBT perder a verba publicitária repassada pelo governo. A deputada do PCdoB Jandira Feghali (RJ) foi quem fez o pedido para que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) deixe de beneficiar a emissora de Silvio Santos com a verba. Para Feghali, a jornalista praticou apologia e incitação ao crime e à tortura ao dizer que a população tinha motivos para sentir vontade de fazer justiça com as próprias mãos. “Como o governo pode subsidiar um canal que tem uma editorialista que incita à violência e à justiça com as próprias mãos?”, questiona a deputada. Ao site Congresso em Foco a líder do PCdoB na Câmara afirmou que a Secom já está estudando seu pedido. “A Secom me deu um primeiro retorno dizendo que concorda com o conteúdo do nosso pedido e que estuda quais providências tomar.”
Em resposta a Secretaria confirmou que está estudando o caso e que o ministro Thomas Traumann ainda precisa decidir se suspenderá ou não a verba de publicidade para o SBT. Em 2012 a emissora recebeu R$ 153,5 milhões por exibir publicidades do governo federal. A Globo recebeu R$ 495 milhões e a Record R$ 174 milhões. Além desse pedido junto à Secom, a deputada do PCdoB também apresentou um requerimento à Procuradoria-Geral da República (PGR) em que pede a abertura de inquérito contra a TV e Rachel Sheherazade. Se o SBT for condenado pode até perder o direito à concessão pública. “Não podemos ser coniventes com nenhum crime. O único poder capaz de julgar a proporcionalidade da punição é a Justiça, que dá direito de defesa. Temos de defender o estado democrático de direito”, disse Jandira Feghali.
Jornalista já se defendeu na imprensa: Em 11 de fevereiro a jornalista escreveu um artigo para o jornal Folha de São Paulo dizendo que não defendeu a atitude dos justiceiros do Rio, mas que compreendia. Em meu espaço de opinião no jornal SBT Brasil, afirmei compreender (e não aceitar, que fique bem claro!) a atitude desesperada dos justiceiros do Rio”, escreveu. O SBT também já se manifestou dizendo que não tem responsabilidade pela opinião da jornalista, mas para a deputada a direção do canal tem que assumir o que seus funcionários transmitem como opinião.

Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura.
Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro.
O jornal O Globo publicou neste sábado (31/08) em seu site um texto no qual admite que errou ao apoiar o Golpe de 1964, que deu início à ditadura militar no País. Pressionado pelos protestos de junho, o jornal decidiu divulgar o documento, que tornou públicas discussões internas das Organizações Globo sobre o episódio. “Não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio (ao golpe) foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original”, diz o texto, que pode ser lido na íntegra no site Memória, que reúne a história de O Globo. Durante os protestos que eclodiram em junho, a Rede Globo e veículos afiliados foram alvo dos manifestantes em diversas cidades. Eles acusavam a empresa de ter apoiado editorialmente a ditadura militar. Atos contra prédios da emissora foram registrados em todo o País. Ao divulgar o texto hoje, O Globo afirma que “governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas”. “A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O Globo, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e o Correio da Manhã, para citar apenas alguns”, diz o texto.
O documento faz um resgate da situação política antes do golpe e relembra que, no dia 31 de março de 1964, teve sua sede invadida por fuzileiros navais comandados pelo Almirante Cândido Aragão, do “dispositivo militar” de João Goulart, como se dizia na época. “Naquele contexto, o golpe, chamado de ‘Revolução’, termo adotado pelo O Globo durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Na justificativa das Forças Armadas para a sua intervenção, ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as eleições presidenciais de 1966”, explica o texto do jornal. O jornal também afirma que Roberto Marinho, na época presidente das Organizações Globo, “sempre esteve ao lado da legalidade”. “Cobrou de Getúlio uma constituinte que institucionalizasse a Revolução de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constituição de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares. Durante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda: como é notório, fez questão de abrigar muitos deles na redação do Globo.” O texto de O Globo termina afirmando que a História “é o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhecê-los”. “O Globo não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país”, afirma o jornal.