Três dos 22 jogadores convocados para os próximos amistosos da Seleção Brasileira de Futebol tiveram passagem pelos principais clubes portugueses. Hulk (ex-Porto FC), David Luiz (ex-Benfica) e Ramires (ex-Sporting e ex-Benfica), hoje bastante valorizados no mercado internacional de futebol, são apontados como exemplos de que os gramados lusitanos podem servir de tapete para a glória no esporte.
Entre a temporada de 2009/2010 e de 2013/2014, 318 brasileiros se transferiram para Portugal (primeira e segunda ligas), conforme contabiliza o site especializado em futebol internacional 365.
Ficar nos campos do Brasil é apontado por pessoas do meio como a melhor alternativa para a carreira do atleta do que cruzar o Oceano Atlântico, mas as relações dos jogadores com os clubes e a crise econômica que atravessa também o futebol português, no entanto, podem alterar o mercado.
“A imagem que passa que os jogadores brasileiros vêm para Portugal ganhar dinheiro, na maioria das vezes não corresponde à verdade”, aponta o agente de jogadores de futebol Ramiro Sobral, cadastrado na Federação de Futebol de Portugal. “Os salários pagos pela maioria dos clubes portugueses estão longe de permitir que um jogador brasileiro após dez anos de carreira de futebol, quando acaba de jogar, tenha a vida orientada. Pelo contrário, quando para de jogar futebol vai ter que procurar emprego, porque em dez anos não terá ganho o suficiente para viver daquilo que construiu”, alerta o agente.
Segundo os especialistas do ramo, os salários pagos no Brasil tornaram-se mais competitivos e ficar no país pode ser vantajoso. “Ainda que para vir pelo mesmo salário pense duas vezes”, aconselha Emanuel Calçada, advogado especializado em direito do Esporte e secretário-geral da Associação Nacional de Agentes de Futebol de Portugal. “Há uma tendência de mudança. [Os clubes] começam a se virar para o mercado africano”, acrescenta Marcelo Silva, agente brasileiro também registrado na federação.
Esses fatores podem explicar a queda crescente da participação verde amarela nas últimas cinco temporadas do campeonato português. Estatísticas da Liga Portuguesa de Futebol Profissional mostram que entre as temporadas de 2008/2009 e de 2013/2014 caiu em quase 20 pontos percentuais a presença de brasileiros na principal competição lusitana – de 60,08% para 40,24%.
Há cinco anos, os brasileiros somavam 146 atletas na competição (no pico, o número chegou a 157). Na atual temporada, há por enquanto apenas 101 jogadores “brasucas” (como dizem os portugueses). Apesar da queda, os brasileiros ainda são os estrangeiros mais frequentes dentro das quatro linhas do futebol português (cerca de dois em cada grupo de dez atletas).
Com o inverno mais ameno da Europa e o mesmo idioma, Portugal é visto pelo senso comum como a melhor porta de entrada para jogadores brasileiros de futebol do continente. Mas o sonho de participar das principais competições internacionais pode se tornar um pesadelo. Jogadores e outros profissionais do ramo alertam para diferentes riscos de exploração, desde a captação irregular de talentos na origem até o atraso recorrente de salários no futebol português – onde os brasileiros são os estrangeiros mais frequentes nos gramados.
No recrutamento de novos atletas no Brasil, alguns agentes (empresários) se aproveitam do alto interesse dos jogadores, convencem os pais, e se apropriam do dinheiro da família creditado antecipadamente para tentar uma suposta oportunidade em Portugal. Como na maioria dos casos, a vinda dos jogadores sai a custo zero para os clubes portugueses, são os próprios atletas e pais que pagam passagens, bancam a alimentação, hospedagem e taxa de inscrição, além de remunerar o agente.
Ao chegarem em Portugal, geralmente meses antes das janelas de transferência (janeiro, julho e agosto, habitualmente), os atletas ficam em casas e dormitórios dos clubes (geralmente pequenos, de base) onde se apresentarão. Esses jogadores, segundo dezenas de relatos, reinam nos clubes com a expectativa de serem aproveitados ali ou convidados por times adversários.
“Os meninos põem em causa a sua vida e a dos seus pais para vir para Europa. [Aqui] são colocados em condições sub-humanas com 20 a 30 [pessoas hospedadas] numa casa. [Nos clubes] fazem jogos de treino com equipes portuguesas para ver se algum jogador interessa”, conta o presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol de Portugal (SJPF), Joaquim Evangelista.
Passado algum tempo, e sem conseguir contatar mais o empresário, muitos jogadores descobrem que não serão aproveitados e que o dinheiro da transferência, alimentação, hospedagem e remuneração foi desviado pelo agente, e que o clube (que não irá contratá-lo) precisará da sua vaga no dormitório ou na casa para abrigar outro atleta.Sem dinheiro, sem perspectiva de contratação e sem destino, o atleta deverá sair brevemente. “Se tiver uma oportunidade tudo bem, mas se não tiver, depois fica aí abandonado”, descreve Evangelista ao acrescentar, que já denunciou “o tráfico de jovens” iniciado no Brasil. Segundo ele, “quando o jogador deixa de ser opção, retiram da casa e proíbem que os jogadores comam nos restaurantes que são do clube”.
De acordo com o agente brasileiro registrado na Federação Portuguesa de Futebol, Marcelo Silva, há em Portugal (como em outros países) um “mercado paralelo” de empresários que não são cadastrados oficialmente e por isso há mais dificuldade para serem punidos. Também são mais difíceis de localizar para apurar o desvio de dinheiro ou quebra de acordo. “É um mercado onde há muito agente não licenciado e não está apto a exercer a profissão” alerta Silva.
Sem conseguir a sonhada vaga em um time português, os brasileiros acabam por procurar trabalho fora das quatro linhas. Foi o que ocorreu há três anos com o goleiro brasileiro Rodrigo Gomes Pacheco, conhecido como Rodrigão, de 27 anos), e hoje está no Académico Viseu Futebol Clube.
“Eu tive que ficar parado sem jogar. Fiquei parado por volta de cinco meses sem clube e sem nada”, contou o jogador – único que concordou em dar o depoimento gravado para a reportagem. Nessa situação, o atleta trabalhou em serviços de mudança, limpeza e em restaurante. “Tudo informal”, para se manter enquanto esperava uma chance.
Após conseguir um clube, Rodrigão teve que viabilizar sua transferência e esperar a “papelada” correr entre o Brasil e Portugal, desde o clube de formação (começou em uma categoria de base em Minas Gerais) até o primeiro clube português, passando pela federação estadual de futebol, pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) e, finalmente, pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
Percorrida a trajetória, Rodrigão alerta que os riscos de exploração não cessam aí. Quando os jogadores não têm dinheiro para pagar sua transferência e nem meios de levantar, e ainda assim interessam ao clube, os dirigentes propõem informalmente um adiantamento para custear a despesa que será descontado mensalmente no salário. O valor da transferência varia conforme a divisão que pertence o clube. A fraude é confirmada pelo presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol de Portugal que avalia que há atletas que “quase pagam para jogar”.
Agência Brasil / EBC